Suspeito de extorquir familiares de presos, advogado nega ter cometido crimes em Ribeirão Preto

Ernesto Matalon
Ernesto Matalon
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Em ligações gravadas com autorização da Justiça, Gaeco descobriu esquema de extorsão. Marco Antonio Zacarias nega ter cometido irregularidades e diz não conhecer outros presos.

O advogado Marco Antonio Zacarias, que foi preso nesta quinta-feira (4), em Ribeirão Preto (SP) durante a Operação Coiote, que investiga um suposto esquema de extorsão de familiares de presidiários e pessoas investigadas, e falsificação de documentos judiciais, diz ser inocente. Ele afirma ainda que não tem nenhum tipo de envolvimento com as outras pessoas presas.

O grupo preso é suspeito de ter tentado aplicar golpes de até R$ 9 milhões nas vítimas de extorsão e era formado por dois advogados, dois falsários e um servidor do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). A quadrilha forjava a imputação de crimes contra familiares de pessoas presas para facilitar a oferta de benefícios judiciais ilegais em troca de propina, de acordo com o Ministério Público.

Entre os presos estão os advogados Ana Paula Vargas de Mello e Marco Antonio Zacarias, os falsários Daniel da Silva e Luciana Andréia do Nascimento, além do funcionário do Tribunal de Justiça de São Paulo, Paulo Poletto, que atuava na 4ª Vara do Fórum de Ribeirão Preto.

Ainda na delegacia de Ribeirão Preto, Zacarias chegou a afirmar que desconhecia o motivo pelo qual estava sendo preso e afirmou que apesar de ter participado de processos que são investigados pelo Grupo de Atuação Especial do Crime Organizado (Gaeco), ele não teria feito nada irregular.

“Eu já falei para o pessoal que eu não tenho nada com isso. O que eu fiz foi procedimento normal, normal. Fui constituído para fazer os processos e fiz, está lá. O que eu tenho está registrado no tribunal. Não tem nada. Eu não vi ainda, eu vou verificar o que é”, disse.

Além disso, ele negou que tivesse trabalhado ou conhecido a também advogada Ana Paula Vargas de Mello. Ainda segundo Zacarias, seu nome teria sido usado de maneira ilegal e diz que vai investigar como foi incluído na lista de suspeitos da polícia.

“Eu nunca trabalhei com a Ana Paula, nunca tive contato com ela. Usaram meu nome para alguma coisa, não sei ainda, vou apurar. O que me perguntaram lá foi sobre um processo que eu fiz, fiz regular”, conclui.

Os cinco suspeitos foram presos temporariamente e levados ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Ribeirão. Eles respondem por crimes como associação criminosa, extorsão, exploração de prestígio, corrupção ativa e passiva e violação de sigilo profissional, e devem ser ouvidos no início da próxima semana. Mais de 20 pessoas, entre vítimas e testemunhas ligadas aos suspeitos, também devem prestar depoimento.

Os três homens deverão ficar presos no Centro de Detenção Provisória (CDP) enquanto as mulheres serão transferidas para a cadeia de Mogi Guaçu. Além das prisões efetuadas, foram apreendidos R$ 15 mil, duas porções de maconha, uma arma de uso restrito, dois crachás de identificação funcional do TJ-SP falsos – um de escrevente e outro de assessor judiciário -, autos de processos criminais de acesso restrito, carimbos em branco e uma máquina processadora de carimbos.

Todas as ações foram acompanhadas por representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Ligações
Em ligações gravadas com autorização da Justiça, o Gaeco descobriu que Luciana Andréia do Nascimento era a responsável por entrar em contato com possíveis vítimas de golpe. Em uma das ligações, registrada no dia 28 de outubro de 2016, ela liga para um homem não identificado para falar sobre provas contra Marco Antonio dos Santos, ex-superintendente do Daerp, e réu na Operação Sevandija.

“A gente tem que, literalmente, pegar essa documentação toda e dar um fim nela. E eu queria estar passando pra ele (Marco Antonio dos Santos), explicando, ou pro senhor, entendeu? Explicando certinho pra ele. Porque, olha, eu vou falar pro senhor: É 72 anos de reclusão. Isso daí a gente já sabe como que é, com todos os artigos que ele vai cair. Fora essa CPI que eles tão montando, que é do Daerp. Vai montar da Coderp, vai montar […] nossa, e vai arrastar ele. Infelizmente, o nome mais citado é dele e do Luiz Mantilla que já tá pronto pra fazer delação premiada e tudo mais”.

Em uma segunda ligação, realizada no começo de dezembro, Luciana diz que teve acesso a provas achadas pelo Gaeco dentro do apartamento de Marcelo Plastino, que era dono da empresa Atmosphera e morreu no fim de novembro de 2016.

“Tá aqui. Eu tenho, a gente tem acesso aos pen drives, as coisas, as cartas que foi pego na casa do Plastino, entendeu? Aí, o nome do senhor tá envolvido aqui no meio dessa corrupção”.

Já neste ano, Luciana conversou com o filho da advogada Maria Zuely Librandi, também investigada durante a Operação Sevandija. Se passando por uma funcionária do Tribunal de Justiça de São Paulo, ela pede dinheiro para conseguir obter a liberdade provisória de Maria Zuely em até uma semana.

“Sete dias pra ela tá saindo, ela vai sair de cabeça erguida como qualquer um saiu ali de dentro. Nesse meio tempo, o que que a gente vai correr? Limpar toda a situação, é das escutas telefônicas. Então foi feito um conjunto. É um trabalho em conjunto entre os magistrados, isso que eu quero que você entenda. Então, assim, o que eles me passaram: o acordo seria R$ 300 mil e R$ 100 mil você daria de entrada. O restante, depois de sete dias, a hora que sair o Habeas Corpus dela, que ela pôs o pé na rua, ou que você for buscá-la, ou qualquer coisa assim, você termina de pagar o restante. Sete dias ela tem que estar na rua. Se ela não estiver na rua, o teu dinheiro tá na tua mão de volta”.

Operação Coiote
O caso começou a ser investigado em outubro do ano passado depois que uma das vítimas decidiu fazer a denúncia às autoridades. Segundo o promotor do Gaeco Leonardo Romanelli, essa pessoa não chegou a cair no golpe, mas informou que o suspeito dizia ter ligações com o Gaeco e que poderia ajudá-la a se livrar das acusações, que eram falsas.

De acordo com a Promotoria, a ação do grupo contava com uma falsária, munida de informações privilegiadas de processos obtidas por advogados e pelo servidor do TJ, que se aproximava dos familiares das vítimas com documentos forjados e evidências montadas, como trechos de fichas de antecedentes criminais, de que estas estavam com algum débito com a Justiça e poderiam ser presas.

Depois de conseguir convencer a vítima de que as acusações inexistentes eram verdadeiras, a mesma pessoa, que chegava a se apresentar como assessora de desembargador ou como agente do Gaeco, por exemplo, garantia ter contatos com representantes da Justiça em diferentes instâncias e pedia dinheiro para conseguir aliviar as acusações com conhecidos. Ao mesmo tempo, indicava um dos advogados do grupo para assumir sua defesa.

Além de familiares de crimes como homicídio e tráfico de drogas, o grupo abordou parentes de políticos investigados na Operação Sevandija, sem qualquer ligação com as fraudes em contratos e pagamento de propina envolvendo agentes públicos na Prefeitura e na Câmara de Ribeirao Preto.

“Antes disso, os advogados tinham levantado informações dos casos judiciais para que ela tivesse detalhes dos processos. Na casa dela foi apreendida uma das denúncias do caso da Sevandija e documentos de vários dos processos”, disse o representante do Gaeco.

Nos seis meses de interceptações telefônicas e depoimentos, o MP apurou que o grupo chegou a inventar a apreensão de um documento, inexistente, no apartamento do empresário Marcelo Plastino – morto no ano passado e acusado de envolvimento nas fraudes da Prefeitura – com supostas acusações. Outra suspeita é de que o mesmo grupo planejava se aproximar de familiares da ex-prefeita de Ribeirão, Dárcy Vera (PSD), também acusada na Sevandija.

Romanelli nega que o grupo tenha ligação com juízes e afirma que os crimes cometidos agridem a imagem do judiciário. “Nem o judiciário ou ninguém responsável pela Operação Sevandija nem o Gaeco, não estamos à venda de ninguém. Vamos punir essas pessoas que usaram enganosamente nosso nome para praticamente qualquer tipo de prática extorsiva ou enganosa”, afirmou.

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